9 de novembro de 2016

Cientistas anunciam infecção pelo mayaro no Haiti

por Fábio de Castro e Lígia Formenti | Estadão Conteúdo
Cientistas anunciam infecção pelo mayaro no Haiti
Foto: Reprodução / Pixabay
Cientistas americanos anunciaram ter encontrado, no Haiti, um caso inédito de infecção pelo mayaro - um vírus típico da Amazônia, que causa uma febre semelhante à chikungunya. De acordo com eles, o caso pode ser um indício de que o vírus está se espalhando pelas Américas. Um especialista em virologia consultado pela reportagem, no entanto, afirma que não há motivos para alarme, já que o vírus, conhecido há mais de 60 anos, por enquanto sóé transmitido por mosquitos silvestres - e não pelo Aedes aegypti, que poderia espalhá-lo em áreas urbanas. O Ministério da Saúde informou que não há registros de transmissão da febre mayaro por meio do Aedes aegypti. O caso registrado no Caribe pela equipe liderada por John Lednicky, da Universidade da Flórida (Estados Unidos) foi identificado a partir de amostras de sangue de um menino de 8 anos, morador de uma zona rural do Haiti. Até hoje, o mayaro só havia causados surtos isolados na região amazônica, em países como Brasil, Colômbia e Venezuela. Em 2015, um surto de febre mayaro foi registrado em Goiás, atingindo cerca de 40 pessoas. O registro de um caso no Haiti, no entanto, não significa necessariamente que o vírus esteja avançando pelo mundo, de acordo com o virologista brasileiro Mauricio Lacerda Nogueira, do Laboratório de Pesquisas em Virologia da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto. "O vírus não provocou nenhuma epidemia mundial nas últimas décadas e nada indica que isso irá ocorrer da noite para o dia apenas porque tivemos um caso no Haiti. Precisamos ficar em alerta, mas não podemos ceder ao alarmismo", disse Lacerda à reportagem. O Brasil é o país com o maior número de casos de mayaro no mundo, de acordo com Lacerda. Mas ele só se tornaria um problema epidemiológico grave - como a dengue, por exemplo - caso se adaptasse para utilizar o Aedes aegypti como vetor. Mas essa possibilidade, por enquanto, não passa de uma especulação. "O mayaro pode se tornar um problema se começar a ser transmitido pelo Aedes aegypti. Sabemos que em laboratório o Aedes é capaz de transmiti-lo, mas até onde sabemos, nunca houve uma epidemia de mayaro que possa ser atribuída a esse mosquito, nem no Brasil, nem nas Américas" disse Lacerda. Diversos grupos de pesquisa no Brasil têm feito estudos sobre o mayaro - incluindo a equipe liderada por Lacerda - e até mesmo uma candidata a vacina já foi desenvolvida em laboratório. "A vacina está praticamente pronta, mas os testes clínicos não avançaram ainda por falta de interesse da indústria farmacêutica. Há poucos casos e, portanto, pouca procura. Não sabemos qual é o impacto socioeconômico da doença", disse. Apesar dos vários estudos, segundo Lacerda o mayaro ainda é de maneira geral muito pouco estudado e pouquíssimo conhecido pela comunidade científica e médica. "Isso é o mais preocupante em relação a esse vírus. Ao contrário da chikungunya, que tem sintomas muito parecidos, o mayaro é completamente desconhecido por 95% da comunidade médica", afirmou.

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